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RELATO de O OUTRO CORPO DO EU

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Fotografia: Felipe R. Pacheco

Iniciei a ação bem apreensiva. No dia anterior, o meu vizinho, que mora na casa da frente, veio até meu condomínio reclamar do volume da música que eu e meus amigos estávamos ouvindo. Após a reclamação dele, senti uma força interior que me fez ter um embate com ele, mas não pelo motivo do volume do som. Os dias anteriores a esse momento já estava percebendo que, em horários e dias diferentes, esse rapaz estava a observar a minha casa através de sua janela. Já havia reparado que, por diversas vezes, ele havia invadido a minha privacidade, impedindo que eu trocasse de roupa no meu próprio quarto, uma vez que ele estava lá sempre me observando pela janela.  Então, no momento que ele veio até minha casa pedir para eu abaixar o volume, só consegui gritar para que ele parasse de olhar para o meu quarto já que eu sabia que estava sendo observada o tempo todo e fechar as cortinas não mudava a situação. Ele simplesmente se fez de desentendido e me culpou, disse que era eu quem estava a tirar a privacidade de alguém. Me senti fraca depois disso, porque, novamente, estava sendo silenciada. Sinto que o meu corpo, nesta sociedade machista, está atrelado ao sofrimento diário de assédio; isso é mental e fisicamente exaustivo. Então, pouco antes de iniciar a ação, me senti insegura para colocar meu corpo da maneira que estava planejando: sem roupas. Mesmo estando na minha própria casa e com as cortinas fechadas, não estava confortável o suficiente para tal. Por isso, vesti um top e um short preto para minimizar a sensação de insegurança e não consegui tirar moldes de algumas partes do meu próprio corpo, naquela sessão, já que em vários instantes achei que estava sendo observada pelo rapaz do dia anterior (mesmo que não estivesse, de fato, ali). Panoptismos (FOUCAULT, 2021). Enquanto criava as placas de argila, logo no início do processo, conversava com o meu grande amigo e fotógrafo Felipe Roehrig Pacheco, responsável pelo registro das imagens da primeira sessão da minha ação. As trocas que tive com ele me deixaram um pouco mais segura comigo mesma e me fizeram esquecer do infeliz acontecimento, enquanto continuava a moldar o meu corpo na argila. Foram muitas risadas e sorrisos. Aproximar e imprimir a argila em minha pele, realmente tornou-se um rito de cura. Vi aparecer, naquela matéria viva, orgânica, macia e flexível, várias formas e impressões da pele e dos meus dedos que amassavam e a pressionavam contra mim mesma. Ao longo da ação, resquícios de argila permaneceram em mim, em uma mistura matérica que deixou parte do meu corpo nela e parte de seu corpo, em mim.

Na segunda sessão de modelagem da argila em meu corpo estive mais confortável e consegui tirar as roupas para imprimir partes que não havia conseguido antes. O voyeur indesejado e sem qualquer tipo de consentimento já não estava me observando há algumas semanas e não abre mais a janela do lugar que ficava para me observar desde o dia que o denunciei na frente dos meus amigos na noite anterior da primeira sessão. E dessa vez realizei a ação no período da noite em um dia que fazia frio, e por isso, foi mais difícil colocar a argila sobre mim. No começo, sentir o gelado em minha pele foi um tanto doloroso, mas ao longo do tempo se tornou mais fácil, eu e a argila fomos nos formando em um só novamente, desde a união dos corpos e a temperatura.

Após modelar dezenas de fragmentos em argila verde, utilizei-as para criar e recriar os corpos amorfos no chão. A montagem ocorreu em uma terceira sessão, dessa vez ao entardecer. As peças foram colocadas em várias posições, as vezes com espaçamento entre elas e em outras sobrepostas, criando um grande volume. Foram usados os moldes secos e recém criados.

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