Registro: Felipe Pacheco
Eu vou romper as minhas amarras
Performance
Materiais: porta, goivas, parafusos, espátula, rolo, tinta de gravura preta, papéis sulfurize, papel kraft, colher de madeira, jornal, querosene
Duração: 3 horas
Local: Sala de desenho I do Departamento de Artes e Música da Universidade Federal do Paraná - UFPR
Ação realizada no dia 11 de maio de 2019, aproximadamente às 11h00
Programa performativo: entalhar o texto com o auxílio de uma ponta seca (ou qualquer outra ferramenta pontiaguda); depois de terminar o texto, deitar a porta no chão; entintar toda a superfície com a tinta preta; colocar os papéis sulfurize sobre a porta; com a colher de madeira, fazer movimentos circulares no papel para que a tinta tenha uma boa aderência; fazer o máximo de impressões que você aguentar.
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Relato:
No início da ação, eu senti raiva; entalhei aquelas palavras com força, para que saísse de mim toda aquela dor… se fosse possível. Aquilo acabou se tornando um “ritual de passagem” e acredito que, de certa forma, também foi um “peso” retirado de mim. Foram 3 horas em que me mantive somente naquilo. Mal conseguia observar o que estava à minha volta. Era um dia frio e chuvoso que chegava a ser melancólico. No dia anterior, chorei de um jeito que chegava a soluçar. Na ação, senti que não precisava mais. Era um alívio estar fazendo aquilo. Nos meses que se seguiram, pude notar a tranquilidade que ter feito aquilo me trouxe. Deixou de ocupar o meu centro. Antes de realizar a ação, eu estava certa de que iria fazer três impressões daquela porta, mas, ao longo do processo, percebi que meu corpo não iria aguentar, era cansativo, sugava minha energia, o forte odor da tinta e do querosene tomava conta do espaço. Por isso, uma impressão bastou. Terminei exausta.
Apresentei o trabalho na aula no dia 17 de maio de 2019, em um dia chuvoso. Comigo, havia sete pessoas. A sala estava escura. Para apresentar o trabalho, entreguei a minha agenda, aberta nas páginas em que o texto tinha sido escrito, para uma pessoa e indiquei que, após a leitura, ela deveria ser passada para a pessoa ao lado. Selecionei quinze fotografias e as exibi por cerca de 10 segundos cada. Em seguida, as pessoas presentes comentaram sobre o trabalho e as falas que mais me marcaram foi “a artista fala de si mesmo, não apenas se coloca no outro” e “mesmo partindo de uma experiência própria, a intensidade do trabalho é quando atinge as experiências alheias”. Isso me fez refletir muito sobre a minha produção, porque antes disso eu fiz vários trabalhos sobre violência contra a mulher, mas sempre me colocava distante do tema e sempre esquecia que também fazia parte do assunto que sempre discuti. Foi um choque perceber que eu me retirei de um assunto, sendo que comecei a fazer trabalhos sobre isso por traumas que vivi. Outra questão, levantada a partir do que apresentei, foi sobre qual seria a melhor maneira para circular o texto que entalhei na porta. Durante a aula, isso aconteceu por meio da minha agenda, mas surgiram sugestões de fazer o texto circular por meio de cartas e impressões simples. Pensei muito sobre isso e o colega Leonardo Achinitz até fez um vídeo da ação, que divulguei em minhas redes sociais, mais como um meio para desabafar e, hoje em dia, a ação ressignificou muita coisa para mim.

Registro: Felipe R. Pacheco
