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O OUTRO CORPO DO EU: uma relação entre corpo, gênero e performatividade

Fotografia: Felipe R. Pacheco

O PROJETO

Foram necessários alguns quilos de argila e impressões do meu corpo para construir o que vem a ser o trabalho final para a conclusão da graduação. Refleti muitas vezes sobre qual caminho tomar para tratar do assunto do corpo e suas ramificações nesse projeto. Confesso que foi uma decisão difícil e parecia quase que impossível. Durante as conversas com a minha orientadora, achei que não saberia expressar outra coisa a não ser algo que passasse pela percepção e vivências de dores, física e psíquica, mas, neste meu processo, encontro-me muito mais próxima da cura pela “via terapêutica” que busquei e pela qual tenho passado, mesmo não sabendo exatamente como isso ainda se desdobrará. 

O corpo é um agente de grande poder. Por que afirmo isso? É a partir dele que agimos, interagimos, existimos e somos seres políticos. Na nossa sociedade, o corpo envolve-se em determinadas batalhas, conquistas e também acaba implicado com as violências, mas que não necessariamente são escolhas dos indivíduos. Chega a ser exaustivo enfrentar tantas agressões por causa das representações sociais que o meu corpo adquire nesse infeliz contexto machista, hétero, cis e branco em que vivo. Por isso, o projeto que apresento nesse trabalho tem o objetivo de revisitar o meu próprio corpo com uma atitude mais acolhedora.

Nos meus trabalhos anteriores, diversas vezes parti de um olhar apoiado na dor para refletir sobre as questões mais latentes em mim, até então. Fui questionada sobre os motivos pelos quais eu não estava “avançando” no debate sobre violência de gênero, no sentido de pautar questões mais atuais, ao invés de ficar atada e falando somente sobre a minha dor e sobre seu impacto sobre o meu próprio corpo. Tenho a ciência de que poderia tratar desses assuntos de outras formas, principalmente com acolhimento, entretanto, no momento em que ainda me encontro não poderia produzir trabalhos de outra maneira. Em alguns momentos anteriores, até ensaiei uma superação, mas ainda não havia esgotado as questões que mais me afligiam. Eu estava mergulhada na raiva e sofria muita dor, não sabia o que era cura, não fazia ideia como era me sentir de outra forma. Mal conseguia elaborar esta problemática a mim mesma, intimamente e na vida cotidiana. Por isso, utilizei a produção artística para me expressar. Ainda estou em busca de compreender o que é o meu corpo e a potência que pode alcançar para além dos meus sofrimentos enraizados há muito tempo. Tomar posse da minha potência.

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