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O ARTIGO

Fotografia: Antony de Souza Martins

Nos últimos anos, tomei ciência e estive próxima de várias mulheres que sofreram algum tipo de assédio ou violência sexual. No segundo semestre de 2016, participei da disciplina de Livro de Artista, ministrada pela professora Amanda Torres Cunha e produzi o trabalho “O peso cresce não são flores”, em que utilizei o feltro e o bordado como meio para abordar um tema bem nebuloso e controverso à época, a violência de gênero. A partir dele, comecei a trabalhar e a expor mais pesquisas sobre essa temática, em minha poética. Em 2017, eu produzi o trabalho “Corpo desfigurado”, “Devolva meu corpo” e “Não conte nada para ninguém”, que desenvolvi para a disciplina Projeto Avançado Espaço, Tempo e Forma, sob orientação da professora Dra. Tânia Bloomfield, que teve como objetivo manifestar a dor do silêncio. Em 2018, iniciei alguns trabalhos como “Não conte nada para ninguém II” e “Meu corpo sangra”, com o objetivo de externalizar traumas e assombrações que estavam frequentemente presentes em minha mente. E, por fim, em 2019, na tentativa de dar continuidade aos trabalhos anteriores, modifiquei-os, produzi outras versões, utilizei outras linguagens e tive como resultado os trabalhos “Eu vou romper minhas amarras”, a performance “Sem título” e “O corpo destruído que teve que se reconstruir do mais absoluto nada”. Ao olhar para esses trabalhos e em diálogos com outras pessoas, encontrei a tendência do uso da dor para tratar das questões relacionadas ao corpo e gênero.  

Investi na leitura de textos de Andrea Giunta, que discorreu sobre as representações do corpo nas artes visuais, nas décadas de 1960, 1970 e 1980, por artistas que questionaram os diversos atravessamentos que podem ser observados nesta sociedade cis-hetero-patriarcal-capitalista. Mas de que forma propor o debate de corpo e gênero, sem permanecer infligindo dor a mim mesma, ao tratar de temas tão pessoais e sensíveis? 

Para conseguir compreender os trajetos que estou traçando, foi necessário que aprofundasse a pesquisa teórica, assim como Sandra Rey aponta em seu texto “A pesquisa em arte”, sobre a importância da teoria em conjunto com a poética. Sandra Rey destaca de forma bem esclarecedora que

a pesquisa teórica deve avançar neste labirinto para descobrir esse enigma que é a obra. A teoria busca respostas para o porquê de fazer isso ou aquilo, especula sobre as implicações daquilo que estou fazendo com o que á foi feito. Estabelece relações com a história da arte e com a produção contemporânea. (REY,1996, p. 85). 

Por isso, partindo do pressuposto de que produzi diversos trabalhos durante a graduação com a mesma temática de violência contra a mulher e desenvolvi trabalhos em uma perspectiva mais voltada à dor, ao sofrimento e à exaustão, considero importante, para esse processo, o momento de autorreflexão crítica sobre o material já produzido para assimilar as “teorizações secundárias” (CAUQUELIN, Anne, 2005, p. 93), questionando o sentido dos trabalhos e indo em direção à significação e organização dos signos que os perpassam.  

Na ação "O outro corpo do eu: uma relação entre corpo, gênero e performatividade", para o Trabalho de Conclusão de Curso em Artes Visuais da Universidade Federal do Paraná, com orientação da professora Tânia Bittencourt Bloomfield, tenho, como propósito, colocar o meu corpo em confronto/encontro com o corpo da argila - cuja materialidade orgânica, maleável, flexível, moldável/modelável, também tem a capacidade de acumular as ações que sofre no contato com outros corpos, retendo as impressões, os acidentes, as marcas e as texturas decorrentes desses encontros/confrontos. O encontro do meu corpo com o corpo da argila, impresso em fragmentos, oferece a oportunidade para a construção de um corpo híbrido, que é composto por suas partes arranjadas, a cada vez, em novas configurações, documentada por registros fotográficos dos atos performativos, cuja apresentação pretende mostrar, pela profusão das imagens, que se constitui como uma espécie de trabalho de Sísifo[1]. Trata-se de um corpo que é configurado, não somente por sua materialidade física retida nas impressões do meu corpo no corpo da argila, com a carga emocional e psíquica que acompanha cada gesto, em cada fragmento, mas que também alude a um corpo precário, efêmero, frágil e igualmente modelado pelos atravessamentos discursivos socioculturais que o constroem e o reconstroem, sucessiva e infinitamente.  

A fragmentação do corpo é uma imagem que tem sido abordada em vários campos de conhecimento, também nas artes visuais, e trata-se do conceito-chave em minha presente pesquisa. Um corpo que está em contínua dinâmica de construção física, atualização e atravessamentos discursivos. Em minha pesquisa poética, tenho refletido sobre o que pode ser o corpo para além da matéria e como os corpos com peito e vulva foram abordados por artistas em diferentes períodos.  

Na busca por um diálogo com outras produções artísticas, investiguei a produção em argila dos trabalhos “Amassadinhos” (1991), “Passagem” (1979), "Fendas" e "Ninhos" (1979), da artista Celeida Tostes (1929-1995). Da artista Ana Maria Maiolino (1942-), pesquisei os trabalhos “Terra Modelada” (1996) e “Sombra do outro” (1993-2005), para compreender outros olhares sobre o uso da argila em trabalhos que abordam a temática de corpo e gênero. 

Na presente escrita, utilizei como referencial teórico alguns autores que abordam, conceituam o corpo e debatem sobre a representação do corpo na sociedade, sobretudo nas artes visuais, sendo as fontes mais importantes: Michel Foucault, Vani Maria de Melo Costa, Luana Saturnino Tvardovskas, Maria Lucia B. Kern, Mônica Zielinsky, Icleia Borsa e Lynda Nead.  

No registro de artistas que abordaram o corpo em suas dimensões políticas, de gênero e mesmo na chave de questões sobre o colonialismo, fui em direção a artistas que apresentaram suas visões sobre o corpo em trabalhos artísticos, notadamente, Ana Mendieta, Rosana Paulino, Fernanda Magalhães, Marcia X e Orlan. 

Na sequência, iniciei uma discussão sobre a fragmentação do corpo, partindo do período Iluminista e do uso da guilhotina como instrumento de punição. Com os autores Daniel Arasse, Eliane Robert Moraes, Regilene Sarzi-Ribeiro, Jorge Coli, Patrícia Paixão Martins e Louise Bourgeois tentei apresentar o processo histórico do uso da fragmentação do corpo em estudos científicos que teve como objetivo o estudo analítico do corpo e o impacto do imaginário sobre o corpo visto em suas partes separadas em artistas que passaram a representar a fragmentação em diversas linguagens das artes. 

Nos desdobramentos deste texto, contextualizei e apresentei a metodologia que utilizei para dar sequência à pesquisa poética, desde trabalhos anteriores que antecederam o projeto inicial relacionado a este Trabalho de Conclusão de Curso – TCC, que intitulei de "O outro corpo do eu: uma relação entre corpo, gênero e performatividade. 

Na última parte, apresentei alguns trabalhos das principais artistas com quem estabeleci um diálogo, que foram citadas anteriormente, Celeida Tostes e Ana Maria Maiolino, de forma a relacioná-los com o meu projeto para o Trabalho de Conclusão de Curso, sobre o qual também apresentei os encaminhamentos metodológicos que foram necessários para a execução deste trabalho poético. 

[1] Sísifo é um personagem da mitologia grega que, por desavenças e tentativas de enganar os deuses, foi castigado com a tarefa de empurrar uma pedra pesada até o topo de uma montanha. Ao chegar ao topo, a pedra sempre rolava até o vale e, novamente, Sísifo tinha que voltar a empurrá-la, subindo a montanha, num movimento repetitivo e infinito. (PSICANÁLISE Clínica, 2022).

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